Semeando o Evangelho

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Semear a Verdade e o Amor de Deus

domingo, 13 de janeiro de 2019

REDESCOBRINDO SANSÃO: DESFAZENDO UMA CARICATURA (PARTE 1)

INTRODUÇÃO

Sansão é um personagem bíblico muito conhecido. Sua história está relatada em Juízes 13-16. Já foi reproduzida em filmes, desenhos e até em uma minissérie de TV (“Sansão e Dalila”, na Record). Todos nós já ouvimos os velhos clichês em muitos sermões: “Não seja como Sansão, que, em sua juventude, foi um filho rebelde. Não seja como Sansão, que foi dominado pela luxúria, orgulho e vingança”…

Lamentavelmente, muitos teólogos, em seus comentários bíblicos, transformaram Sansão em uma caricatura popular infame, onde suas falhas são mais reconhecidas do que suas virtudes.

Contudo, o lado negativo da vida deste servo de Deus é apenas um fragmento de toda a história. A “ênfase” nos pecados de Sansão impede muitos cristãos de enxergarem o lado positivo de sua vida e a sua importância nos propósitos do Senhor para o seu povo.

Distinguir os 4 ciclos da trajetória de Sansão – Juventude  (Juízes 13:25; 14; 15:1-2), Fidelidade (Juízes 13:25; 14; 15; 16:1-3), Queda (Juízes 16:4-21), Restauração (Juízes 16:22-31) – e a estrutura do livro de Juízes [que segue uma ordem temática e não cronológica dos eventos], fará com que o entendamos corretamente.

Sansão foi o 11o juiz de Israel. Primordialmente, os juízes serviam como “libertadores” da nação. Atuavam na esfera militar, com exceção de Débora, que realizou funções judiciais (4:5).

Todavia, antes mesmo de sua mãe engravidar, de forma miraculosa, pois era estéril (13:2-3), Sansão foi escolhido para ser um nazireu נָזִיר (nazîr) por toda a sua vida. Esse termo aponta para a ideia de “separado para dedicação” ao Senhor. Em números 6:1-21, Deus estabeleceu 3 regras que o nazireu deveria observar:

Abster-se de produtos derivados da uva (6:3-4).
Não raspar os cabelos (6:5).
Não tocar em cadáveres humanos (6:6-7).
Ademais, Sansão foi designado por Deus para uma missão extremamente importante: “começar” a libertar Israel da opressão dos filisteus (13:5). O processo de libertação continuou na época de Samuel, contemporâneo do juiz (1 Samuel 7:10-14), e terminou  durante o reinado de Davi (2 Samuel 5:17-25; 8:1).

Portanto, ressignificar a imagem de sansão é uma causa perdida? Acredito que não. É imprescindível!

Redefinindo a suposta juventude confusa e transviada de Sansão (Juízes 13:25; 14:1-19; 15:1-2)

Existem dois eventos na vida de Sansão, antes de começar seu trabalho como libertador militar de Israel, que são comumente mal interpretados pelos cristãos – “o casamento com uma filisteia” e “o contato com o cadáver de um leão”.

Sansão e a Filisteia (14:1-4) 

Quando era jovem, com aproximadamente 20 anos, Sansão foi até Timna, local de seu nascimento. Era uma região localizada ao sudeste de Zorá, no vale de Soreque, que outrora pertencia à tribo de Judá, mas que depois foi dada como herança à tribo de Dã, a qual pertencia Sansão (Josué 19:43). Uma caminhada de aproximadamente uma hora era a distância entre Timna e Zorá. Entretanto, foi ocupada pelos filisteus, no início da opressão de 40 anos (13:1).

Em Timna, Sansão viu uma mulher filisteia; a Bíblia relata que ele se interessou “amorosamente” por ela. Retornando para sua casa, em Zorá, contou aos seus pais sobre aquela mulher; disse que queria se casar com ela e pediu a seu pai, Manoá, que arranjasse o casamento (v. 1).

Os pais de Sansão se opuseram a este casamento, mostrando a ele a opção correta, que seria encontrar uma esposa entre o seu povo, isto é, uma mulher de sua tribo, uma danita, crente, e não uma filisteia, ímpia. Resoluto, Sansão disse que desejava aquela mulher, pois ela o agradava muito (v. 2-3).

Deus havia proibido o casamento de israelitas com cananeus (Êxodo 34:11-16; Deuteronômio 7:1-4; Gênesis 24:3-4; 26:34-35). Os filisteus, porém, não eram cananeus, mas de origem egeia, e não havia proibição explícita de se casar com mulheres filisteias.

Ora, Moisés havia se casado com uma estrangeira; Arão e Miriã contestaram isso (Números 12). Urias, o heteu, era casado com Bate-Seba. Se Bate-Seba era uma israelita, o que não sabemos, por escassez de informações, então este era um casamento misto [exceto se Urias era convertido, o que é provável]. Se Bate-Seba também era hitita, então o casamento de Davi com ela foi um casamento misto [exceto se ela fosse convertida, o que também é possível]. Os hititas eram uma ramificação dos cananeus (Êxodo 3:17; Josué 11:3). A proibição de Deus sobre casamentos mistos devia ser entendida em um sentido de aliança. Se um homem ou mulher cananita se convertesse, ambos poderiam se casar com israelitas. Contudo, de modo geral, o povo de Deus não devia se casar com ímpios (Deuteronômio 7:3-4; Esdras 9-10).

Os pais de Sansão estavam corretos em admoesta-lo sobre o princípio bíblico de que os crentes não deveriam se casar com incrédulos. Mas o versículo 4 diz que “eles não sabiam que o propósito de Sansão em querer se casar com a filisteia era da vontade de Deus e uma oportunidade contra os filisteus, que naquela época dominava Israel”.

Todavia, o versículo 4, no hebraico, indica uma ação constante; isto é, Sansão estava “continuamente” buscando uma oportunidade contra os filisteus. Neste casamento, ele percebeu uma ocasião muito favorável para começar a libertar Israel do poder dos inimigos. Essa interpretação é ratificada pelo fato de Sansão ser “guiado” pelo Espírito do Senhor desde a sua infância e/ou adolescência, conforme 13:25 destaca: E o Espírito começou a agir nele quando ele se achava em Maané Dã, entre Zorá e Estaol. (NVI)

Entendemos, com efeito, que o desejo de Sansão em se casar com a filisteia não foi um ato insipiente e leviano, como muitos estudiosos afirmam. Por quê? Como assim? [falaremos mais sobre o casamento (que foi “diferente” dos outros casamentos com estrangeiros) na parte 2]. Era propósito de Deus. Sansão foi instruído pelos pais na Lei do Senhor. E, mesmo sendo jovem, ele sabia que foi escolhido por Deus e que tinha uma missão a cumprir.

O noivado de Sansão (14:5-7)

Após o diálogo sobre o casamento, Sansão e os pais foram a Timna. O texto não explica se os pais de Sansão entenderam posteriormente que o seu casamento era um plano de Deus, e que este evento daria início à libertação do povo de Israel do jugo filisteu. E também não menciona que, percebendo o encanto de Sansão pela filisteia, seus pais decidiram que seria melhor concordar com ele, talvez para evitar algum conflito. As duas alternativas são possíveis.

Quando estava próximo de Timna, um leão surge repentinamente e ataca Sansão. Neste momento, o Espírito do Senhor “veio [poderosamente, minha ênfase] sobre ele” (Bíblia de Jerusalém) e, sem possuir nada nas mãos, dilacerou o leão, como se fosse um cabrito. Provavelmente, Sansão o estrangulou antes de rasga-lo, “pois não parece que o animal foi rasgado em pedaços, membro por membro, pelo que se segue; ele fez isso com muita facilidade”.1 Mas Sansão não quis contar a seus pais que matou um leão. Por quê? Veremos o possível motivo no decorrer deste epitome.

Não obstante, há uma ambiguidade nos versículos 5-7. O texto relata que Sansão e os pais foram juntos para Timna; contudo, eles não estavam presentes na cena do leão, que ocorreu no trajeto. “Muitas circunstâncias poderiam ter causado uma separação temporária, no caminho até Timna”.2 É possível que Sansão tenha se desviado da rota em que estava com os pais, e quando estavam chegando em Timna, reencontrou-se com eles.

Coffman observa:

É provável que tenha acontecido outras viagens para Timna, e em uma dessas, o pai e mãe de Sansão estavam presentes, talvez fazendo planos para o futuro casamento do filho. Foi em uma dessas viagens que Sansão viu o cadáver do leão e encontrou o mel. Não somente nesta viagem, mas também em outra, Sansão pode ter caminhado [ou corrido] mais rápido que seus pais e feito pequenos desvios a partir da jornada, retornando posteriormente à companhia deles.3

Depois que chegou a Timna, Sansão foi conversar com a filisteia, que lhe agradou bastante. Este foi o primeiro contato que tiveram, pois, até o momento, ele só tinha visto a mulher naquela cidade.

A comunicação social entre jovens de diferentes sexos era extremamente rara e limitada no Oriente, e geralmente acontecia depois que eles eram prometidos4 ou estivessem noivos. Ainda hoje, o diálogo entre homem e mulher solteiros é terminantemente proibido nesta cultura. “O pedido de casamento é feito aos pais da moça; com eles é que se discutem as condições”.5 Sansão, portanto, deve ter conversado com sua noiva somente após seu pai ter feito o pedido de casamento e os esponsais.6

Entendendo a cena do leão morto (14:8-9)

Visto que o casamento estava arranjado, Sansão retorna para sua casa, em Zorá. Algum tempo depois, ele volta a Timna, para se casar com a filisteia.

O substantivo “dias”, traduzido pela ARA e ARC, não é uma tradução muito apropriada. No hebraico יוֹם (yôm), significa “tempo”. Com efeito, a expressão “depois de alguns dias” (ARA, ARC) é mais bem traduzida por “algum tempo” (Bíblia de Jerusalém, NVI e Almeida Século 21).

Na antiga cultura oriental, o noivado costumava durar aproximadamente um ano. Passado este tempo, Sansão volta a Timna, para o seu casamento.

Entretanto, Sansão desvia-se do trajeto para ver o cadáver do leão que havia matado. Quando chegou ao local, viu uma colmeia de abelhas e mel na carcaça do animal. Pegou o mel com as mãos e foi comendo pelo caminho. Ao que parece, Sansão não foi a Timna. Ele voltou para a sua casa e repartiu o mel com seus pais, mas não lhes falou que encontrou o mel no cadáver do leão. Depois eles retornam a Timna, para a festa do casamento.

Por que Sansão omitiu dos pais sobre onde conseguiu o mel?

Afinal, Sansão pecou ao tocar na carcaça de um animal, como o texto aparentemente ressalta?

Muitos estudiosos alegam que Sansão violou a terceira regra do nazireado, que proibia qualquer aproximação com mortos. Pessoalmente, acredito que Sansão não infringiu essa regra, uma vez que Números 6:6 proibia o contato com “pessoas” mortas (v. 7, 9). Além de uma violação, tocar em um “cadáver humano” figurava uma quebra do voto. Contaminado, o nazireu “precisava levar dois pássaros como oferta queimada, uma oferta pelo pecado, e o que era mais caro de tudo, um cordeiro para uma oferta pela culpa. Este sacrifício era reservado para severas infrações das leis de Deus. O contato com os mortos também poluía o seu cabelo santo, que, por conseguinte, precisava ser queimado no fogo do altar (v. 18). Depois, o período de nazireado começava novamente (9-12)”.7

Ora, Sansão não “pecou” contra Deus na cena do leão morto, mas, de acordo com a lei, apenas ficou “impuro”, “sujo”. O que isso significa?

Como se passou aproximadamente um ano deste acontecimento, restou apenas o esqueleto do animal. Provavelmente, a colmeia de abelhas estava reunida no peito do leão.

No extremo calor de um verão, na Palestina, uma carcaça se desidrata rapidamente, impedindo a putrefação, e permitindo que as abelhas façam uma colmeia. Normalmente, as abelhas não se aproximam de um corpo em decomposição. É possível, também, que os lixeiros da natureza, as formigas, os abutres e chacais já tivessem desempenhado suas funções, deixando, assim, uma cavidade natural para as abelhas.8

O contato com animais mortos fazia com que a pessoa ficasse impura por um dia (Levítico 11:28), mas o contato com cadáveres humanos, por uma semana (Números 19:11). Contudo, Deus, em Levítico, por intermédio de Moisés, estabeleceu duas formas de se purificar da sujeira: lavagem em água e espera até à tarde (11:28, 39-40; 15:16-18), ou, em casos mais sérios, o período de espera se estendia por sete dias; posteriormente, a oferta de um sacrifício (14:10; 15:13; 28).

Qualquer um que se tornasse impuro por tocar em cadáveres de animais imundos tinha que lavar as suas vestes e permanecer imundo até ao entardecer, quando, então, começava um novo dia. Naquela ocasião, lavaria seu corpo também; até que tivesse feito isso, não poderia participar do culto no tabernáculo ou em quaisquer ritos sacrificiais pessoais.

Claramente, a legislação visava o controle da doença por meio de reduzir ao mínimo a possibilidade da infecção por germes, vírus, e outros organismos que podiam ser associadas com cadáveres de animais em putrefação.9

Qualquer pessoa que tocasse um cadáver ou um osso humano em um sepulcro, ou entrasse na tenda de um morto, se tornava impuro. Além disso, essa impureza era contagiosa; qualquer coisa que o impuro tocasse se tornaria impura, e infectava os outros (Levítico 15). Desta forma, a morte de alguém no acampamento podia contaminar todas as pessoas que estivessem nele, que, por sua vez, poderia contaminar o tabernáculo do Senhor, exceto se medidas preventivas fossem tomadas.10

Todavia, as restrições impostas ao nazireu indica que a santidade dele excedia a do sacerdote, e era muito parecida com a do sumo sacerdote. O sacerdote não poderia beber álcool antes de cumprir suas funções no tabernáculo (Levítico 10:9). O nazireu não podia consumir quaisquer produtos derivados da uva por toda a vida (Números 6:3-4). O sacerdote poderia ter contato com seus familiares mais próximos que faleciam; o nazireu e o sumo sacerdote, não (Levítico 21:1-3, 10-11).

Enfim, uma simples contaminação era purificada com a lavagem com água e separação até o pôr do sol (Levítico 11:39-40; 15:17). Uma contaminação grave, porém, exigia uma separação de sete dias e a oferta pelo pecado (12:1-2; 15:1-15).

Decerto, Sansão não se contaminou gravemente com um cadáver humano, mas simplesmente com os restos mortais do leão. Conforme vimos, quando ele extraiu o mel do animal que havia matado há cerca de um ano, não existia mais o “cadáver”, que se deteriorou, apenas o “esqueleto”, que provavelmente estava “limpo” de quaisquer resquícios de putrefação.

O mesmo entendimento se aplica na batalha em Leí, onde Sansão, encontrando a carcaça de um jumento, pega seu maxilar [ou queixada] e o utiliza como arma para exterminar mil filisteus (15:15). Se Sansão violou uma das regras do nazireado na cena do leão, como muitos afirmam erroneamente, ele também a infringiu aqui, e pela segunda vez, pois teve contato com uma peça óssea de um cadáver. Porém, o versículo 14 diz que Sansão estava “possuído” ou sob a orientação do Espírito de Deus na execução deste massacre.

Então, para que ficasse limpo de sua “impureza”, Sansão deveria lavar suas vestes e permanecer separado até o entardecer, quando começava outro dia. Depois precisava também lavar o seu corpo, para que ficasse plenamente higienizado. Destarte, o texto não menciona se Sansão fez o ritual de purificação, mas é provável que tenha feito quando retornou para a sua casa, em vez de seguir para Timna (Juízes 14:8-9).

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